Um dia de terror

Dias atrás eu estava refletindo sobre o início do meu sabático com o Benício, e foi exatamente no começo, no primeiro dia.

Quando a gente saiu de casa pra valer, a caminho de Cancún, eu prometi a ele: “filho, vamos começar essa viagem em grande estilo! Elegi um destino super bacana para que nossa jornada comece com gás total e muito otimismo!”. Sim, eu estava muito certa disso, e nem imaginava outra situação. Um “Plano B” jamais havia sido cogitado para qualquer eventualidade, ao menos na chegada. E infelizmente não foi bem assim que as coisas aconteceram.

Tinha tudo pra ser um começo de viagem incrível!!!

Nosso primeiro dia foi regado ao maior perrengue e desafio já vivenciado por nós dois juntos (o meu, tenho certeza que foi, e dele muito mais, por ser jovem e ainda sem tantos dramas reais), um verdadeiro filme de terror. Só não morremos (de medo e de algo pior) por tomarmos a rédea da situação e escolhermos agir a nosso favor.

E essa é ainda a imagem latente que ele tem dos quase 5 meses que viajamos: aquele bendito episódio numa casa abandonada onde tivemos que literalmente fugir para, acredito eu, sobreviver.
Graças a Deus tivemos um final feliz onde os mocinhos se deram bem, mas ainda não consegui mostrar ao Ben o quão importante aquilo foi, principalmente no início da jornada. Mudamos aos poucos nosso trajeto e com certeza evitamos algumas outras furadas, mas com a vibração de medo e ansiedade apos esse episódio, ainda passamos por situações embaraçosas.
Ainda preciso desconstruir e harmonizar a realidade de vida pra ele. Alguma sugestão e Conselho?

Essa é a Mumu, a mascote que viajou conosco.

Para entender melhor, vou relatar detalhadamente o que foi o nosso pior dia de vida (e que Deus nos encheu de sabedoria e força também), até esse momento:

Chegamos em Cancún, mortos de cansados, aproximadamente 20h. Tudo o que a gente queria era ir pra nossa hospedagem, dormir gostoso e acordar super renovados, prontos pra muitas aventuras e alegrias. E tudo que tivemos, a partir do dali, foi uma uma sucessão de terror (eu já havia falado um pouco sobre o Perrengue em Cancún aqui, mas agora relato ele com mais detalhes e sinceridade): já desembarcados, fomos em busca da mala. Levou quase uma hora para recebermos ela, mas relevamos por procedimentos de segurança. Saímos do saguão, com péssimo sinal de internet, e decidimos chamar um Uber no aeroporto para nos levar ao destino. Foram inúmeras chamadas e ninguém vinha. Não entendíamos nada, foi quando uma pessoa disse: “nessa área não entra Uber. Você tem que ir na saída do aeroporto, lado x, rua z”. Eu não fazia ideia de como chegar lá e tampouco sabia que Uber não podia acessar a área de desembarque pois os taxistas não os aceitavam e por muitas vezes, os apedrejavam ou perseguiam. Depois de mais uma hora, já as 22h, nos rendemos a um táxi. Negociamos com um cara meio estranho (único que tinha) que cobrou absurdo, e entramos num carro.

Quem diria que esse sorrisão seria congelado tão rápido, e trocado por tremor de medo?

Pra piorar, não seria esse a nos levar ao local desejado. Vieram uns caras sinistros e de dar medo (não julgamos a aparência, eles tinham todo o jeitão duvidoso). Jogaram nossa mochila no porta mala aberto e ficaram discutindo quem ia nos levar. Eu já tinha medo de que alguém saísse correndo com ela e roubasse… ao menos isso não aconteceu! UFA! Pro nosso azar, veio o cara com o pior semblante possível, falando que não tinha GPS e que eu teria que explicar a ele como chegar no local porque ele não conhecia. Eu não tinha internet, teria que pagar pela do Brasil, e ele falou que: “ou você me dá o endereço com o seu GPS ou vamos ficar aqui dentro desse taxi!”. O Benício estava cansada e nervoso – sentiu minha aflição – e bateu com a cabeça no banco e falou pra mim “Quero ir embora mãe!”. Então o motorista falou: “manda esse menino calar a boca. Se ele quebrar alguma coisa, ele vai se ver comigo!”. Aí liguei a internet do Brasil no celular e falei para ele seguir. Fui rezando! O endereço parecia bem mais longe do que mencionado no anúncio do Booking.com.

Essas camisetas viajariam o Mundo conosco!

Entrando no endereço, já comecei a ter calafrios e rezar mais ainda. Aquele lugar parecia um matadouro. Até o taxista disse que ali só ia bandido e era lugar de “baixa”. Era pouco antes da meia noite, tudo estava escuro, nós mortos de sono e de medo. Demorou pra achar o local e quando chegamos, o taxista quis sair correndo de medo. Nos deixou ali no escuro, mesmo eu pedindo pra ele ficar um pouco e esperar alguém abrir a porta. Ele disse: “Eu não vou esperar aqui”. Gritamos pra alguém abrir a porta da “casa”. Um local caindo aos pedaços, com obra inacabada, matagal, sem vizinhos e minha internet não pegava lá, para nossa alegria!

Estávamos com uma mala/mochila grande pros 5 meses (eu levei ela cheia demais), o que dificultaria uma fuga – foi o que pensei na hora. Um cara simpático veio com uma lanterna para nos recepcionar. Ao menos isso! Pegou gentilmente nossa mala e foi nos levando até “nosso quarto”. Eu esperava na casa construída no térreo, mas não: ele subiu os quase 50 degraus no meio da obra, sem parede alguma, até o nosso “quarto”. O único da obra. Pra ter uma noção não tinha vaso sanitário, só um buraco para fazer as necessidades. O chuveiro era uma mangueira. O quarto tinha barata. Abandonado. Já comecei ali a matutar um plano para escapar. O Benício só falava: “a gente não vai ficar aqui né, mãe?”. E eu só pedia calma, dizendo que eu ia achar uma solução, mas primeiro precisava que o dono da “residência” saísse de perto de nós. Por sorte pedi a ele um tempo pra um banho e perguntei pela senha da internet.

Uma das boas lembranças que restaram daquele tempo…

Para nossa felicidade, conseguimos conectar, mas eu não sabia nem como procurar táxi. Pensei em tentei um Uber de novo, já que ali não parecia ser território de táxi. Na primeira tentativa, deu certo: conseguimos um Uber, que chegaria em 9 minutos. Ou seja: esse era o tempo que eu tinha pra descer com aquela mala pesada, todos aqueles degraus, sem cair pro lado e me quebrar toda, no escuro. Combinei com o Benício de dizer, caso a gente encontrasse o dono da casa, de confirmar de que nos demos conta ali de que acabamos trocando as malas com um amigo que veio junto e íamos devolver no hotel dele devolver.

Eu só tinha a luz da lanterna do celular e o Ben do telefone dele. Pedi pra ele levar a luz na frente, cuidar muito enquanto descia para não desequilibrar, e nisso eu carregava a mochila e mala até embaixo. Qualquer descuido era queda na certa. Quando chegamos embaixo, o Uber chegou e, na mesma hora, o dono da casa bravo por ver que estávamos saindo. O coração disparou.

Eu havia enviado uma mensagem de texto a ele, bem na hora da descida, perguntando onde poderia deixar a chave caso a gente saísse e não voltasse mais, pelos motivos da troca de mala. Ele se colocou em frente ao portão de saída, e eu novamente perguntei onde deixar a chave pois nossos amigos tinham uma cama sobrando no quarto de hotel e talvez pelo horário, a gente não retornaria. Nisso, a motorista do Uber veio falando que estava esperando e tínhamos que ir. Ela ficou observando tudo. Quando entramos no carro, eu disse: “Acelera!”, e ela disse que passou o maior susto pra chegar até ali, que ela estava sendo seguida por uma moto e ia cancelar a corrida, mas só voltou atrás quando viu a foto do perfil do Uber, que era de uma mulher e criança, e achou que estávamos em perigo. Graças a Deus, eu havia colocado a foto um dia antes!

Essa era a foto do perfil do Uber, na ocasião.

A gente tinha, nesse meio tempo, pesquisado um hotel pra ir e ela disse que não ia poder nos deixar na frente dele porque os táxis não deixavam. Paramos a alguns metros e fomos andando de novo, mas agora sem tanto medo, apesar da adrenalina a mil… chegamos a salvo! O Benício até dormiu na recepção por alguns minutos de tanta demora para irmos ao quarto, mas foi uma alegria sem tamanho poder estar num lugar decente, tomar um banho e dormir sem medo.

Pode ser que nada fosse acontecer e aquele era somente um lugar esquisito e de horrores, pois tinham comentários legais de famílias e viajantes, mas eu definitivamente não queria pagar pra ver!

E o mais louco disso tudo, é que o Benício e eu falamos por inúmeras vezes: queria poder esquecer esse tempo no México (esse foi só um dos perrengues!). Queríamos apagar da memória alguns dos acontecimentos. Nosso pedido foi quase atendido: quando chegamos nos Estados Unidos, nosso segundo país, percebemos que perdemos o cartão de memória de fotos do México. Ou seja: memórias fotográficas devidamente apagadas, conforme desejamos.

As fotos que restaram para contar história, são apenas aquelas que compartilhamos em redes sociais e pelo whatsapp com a família!

E fica o aprendizado: não arriscar a vida por tão pouco (dinheiro), estar sempre preparado para tomar atitudes e decisões de urgência, e cuidar com o que desejamos, pois seremos atendidos de alguma forma! 😉

Hoje compreendo que tudo isso TEVE que acontecer, para nos preparar para o que ainda viria, e para tirar o conto de fadas de uma viagem perfeita da minha cabeça. Era preciso planejar e não apenas deixar a vida levar, pois eu e meu filho juntos, por aí, e eu poderia colocar em risco a mim mesma, mas jamais a ele!

Malas prontas!

Já arrumei mala para um fim de semana, já organizei a bagagem para ficar fora algumas semanas, já fiz viagens um pouco mais longas de mochila nas costas. Mas encarar uma jornada de nove meses, passando por vários países, na companhia de uma criança é a primeira vez. E aí, o que levar na mala?

A primeira coisa a ter em mente é que não podemos levar “a nossa casa nas costas”, e a maior parte das nossas roupas, acessórios, brinquedos e pertences pessoais vai ter que ficar guardadinha esperando o nosso retorno. Por outro lado, também temos que levar em consideração que é muito tempo fora e que, nesse período, vamos passar por todas as estações e condições climáticas. No México, por exemplo, que é a nossa primeira parada, um calor de 27°C em média nos aguarda. Menos de um mês depois, nos Estados Unidos, estamos nos preparando para mínimas de 0°C. Sem falar nas oscilações de temperatura que também enfrentaremos na Europa posteriormente. Tantas variações se traduzem para dentro de nossa mala como “de tudo um pouco”, desde roupas de banho para o verão às peças mais pesadas para o inverno.

Estamos levando uma mochila híbrida de 60 litros da Osprey – modelo Sojourn pesando 22kg, uma mochila de combate para carregar no dia a dia e uma mochila de brinquedos (essa é para o Benício “ajudar a carregar” a bagagem). Os brinquedos, além de distração, vão ajudá-lo a matar a saudade de casa com objetos significativos para ele. Confesso que essa seleção de brinquedos está sendo uma tarefa bem difícil! E o que também está pesando na mala são os quatro livros escolares para estudos do Ben durante a nossa jornada. Nesse período, o sistema de estudo dele será através do homeschooling (falarei sobre o assunto futuramente), por isso esse peso na bagagem é inevitável. Ah, e não podemos esquecer da farmacinha e dos equipamentos eletrônicos, que também ocupam bastante espaço, mas são essenciais.

Malas à parte, todo esse processo de organização está sendo muito positivo para nós dois. Apesar de arrumar e desarrumar a mala várias vezes, conseguimos praticar o desapego e separamos mais de 80% das nossas roupas para doação. Isso nos fez confirmar que precisamos de muito pouco para sermos felizes!

Agora que a bagagem está quase pronta (só faltam algumas coisinhas que vamos deixar para guardar no dia da viagem), o friozinho na barriga aumenta à medida em que a contagem regressiva vai se aproximando do fim. Falta pouco!